Mrs. Magoo ainda não desistiu. Seu projeto de vida, de felicidade será alcançado, custe o que custar.
Andando pelas ruas frias, não mais de Nova Iorque, mas de Balneário Camboriú, Mrs. Magoo não consegue mais distinguir aquilo que sente. Ao mesmo tempo em que percorre sua própria história, pensando no quanto lutou para não ficar só, ela não consegue afirmar mais quem é, nem o que quer. Quer dizer, ela até sabe o que quer - alguém com H maiúsculo, diga-se de passagem!- , mas as possibilidades são tantas que, de tanto pensar, não consegue escolher. Então, lembra-se de que ouviu um dia que O neurótico não consegue escolher. Este é seu maior desafio e sua maior tortura. SE ao menos ela fosse escolhida, tudo seria mais fácil... mas não vê possibilidades, não consegue pensar que alguem a escolherá, sempre se vê como aquela que vai atrás, que não atrai atenções... agora, fica com toda a responsabilidade para si... enfim, Sempre fui neurótica mesmo, não seria agora que mudaria. Assim, ela se conforma de novo...
Aff... quem lhe dera conseguir escolher... ao mesmo tempo, ao entrar na cafeteria e pedir um chocolate quente, lhe vem novamente o medo... Será que vou escolher direito? E Mrs. Magoo continua assim, por muito tempo, por muitos dias... talvez, para sempre. Pensa que as oportunidades passam e, mais uma vez, pode passar a oportunidade de ser feliz. Não consegue se livrar da lembrança de seu ex-marido, que a trocou por outra, não tão bombada, não tão bela, mas talvez muito mais mulher do que ela.
Mrs. Magoo vai, então, rumo ao seu apartamento, com essa dúvida que não a deixa em paz. Mais uma noite, a inquietação e a preocupação não a deixam... dorme às custas de seu remédio, assim como nem se dá conta de que só conseguiu sair de casa graças ao seu outro remédio, e lembra que amanhã terá que pegar mais uma receita com seu médico querido, de confiança, que a tem escutado e apoiado por tanto tempo... nem ao menos pensa que, talvez, se desistisse de correr atrás de alguém, se mudasse seus objetivos de vida, se olhasse para o alto, como um dia já fez, poderia nem precisar de remédios, nem de médicos, nem de esse alguém que está tão difícil de definir no momento... Mrs. Magoo somente se arruma, como se tivesse alguém ali, pois não consegue pensar que, após seus cinqüenta e quatro anos, poderia mudar. Não consegue pensar que seus problemas são somente problemas, nada mais do que isso. Não consegue pensar em viver de outra maneira.
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